Tecnoforma: o caso que a justiça arquivou e a política não esqueceu! Suspeitas antigas, impacto recente.

Tecnoforma: o caso que a justiça arquivou e a política não esqueceu! Suspeitas antigas, impacto recente

O nome Tecnoforma entrou no vocabulário político português em meados da década de 90. A empresa, dedicada à formação profissional e a projetos cofinanciados por Bruxelas, contratou Pedro Passos Coelho como consultor. O problema surgiu porque, nessa altura, Passos era deputado em regime de exclusividade. A dúvida era simples: poderia ou não ser remunerado por serviços externos? Durante anos o tema esteve adormecido, até regressar em 2014 com força redobrada. Na altura, Passos era primeiro-ministro e a polémica ganhou proporções nacionais.

O Ministério Público abriu inquérito, analisou documentos e escutou testemunhas. Meses depois, concluiu: não havia indícios para acusar. A justiça disse não, a política disse sim Apesar do arquivamento, a disputa política fez do caso um palco de desgaste. O PS, em plena preparação para as legislativas, não deixou escapar a oportunidade. Em debates parlamentares e declarações públicas, socialistas questionaram a ética do primeiro-ministro e apresentaram o caso como exemplo de promiscuidade entre política e negócios. No próprio PSD, o episódio foi aproveitado por vozes críticas de Passos. Luís Marques Mendes, ex-líder social-democrata e então comentador televisivo, regressava ao tema com frequência, garantindo que o “fantasma Tecnoforma” continuava a pairar sobre a liderança do partido. O palco mediático O programa “Sexta às 9”, da RTP, liderado por Sandra Felgueiras, tornou-se a montra principal da investigação jornalística. Reportagens detalhadas, com acesso a documentos e testemunhos, transformaram a Tecnoforma num assunto semanal.

A jornalista não escapou a críticas. Setores próximos do PSD acusaram-na de parcialidade, recordando que a sua mãe fora militante socialista. Felgueiras sempre rejeitou qualquer motivação partidária, defendendo que o programa cumpriu apenas a missão de “escrutínio do poder”. A voz da defesa: Cristóvão Carvalho Do lado da empresa, a defesa coube ao advogado Cristóvão Carvalho. Foi ele quem assumiu a linha da frente na comunicação pública da Tecnoforma. Em conferência de imprensa, esclareceu: “Pedro Passos Coelho foi remunerado como consultor da Tecnoforma entre 2001 e 2007, já depois de ter cessado funções de deputado. Não houve qualquer irregularidade.” Carvalho sublinhou ainda que a ligação da empresa ao CPPC (Centro Português para a Cooperação) era apenas de mecenato e que cada entidade tinha contabilidade própria. Mais do que explicar, anunciou medidas concretas: “Gerou-se um monstro jurídico e político que nada tem a ver com a Tecnoforma. A empresa vai agir judicialmente contra quem ofender o seu bom nome.” Os alvos seriam jornalistas, comentadores e até um membro do Governo, acusados de terem contribuído para o que chamou “intoxicação mediática”. Arquivo e memória O processo acabou arquivado, sem acusações a Passos Coelho ou à empresa. Mas a política raramente esquece.

A narrativa da Tecnoforma serviu para minar a confiança no então primeiro-ministro e para dividir o próprio PSD. Hoje, o caso é recordado como exemplo de como um processo judicial pode terminar em silêncio, mas deixar um eco ensurdecedor no espaço público. Para uns, foi um episódio de escrutínio necessário. Para outros, uma cabala política bem montada. Para Pedro Passos Coelho, uma sombra que nunca chegou a traduzir-se em condenação, mas que marcou de forma indelével a sua passagem pela vida política.