Incêndios: não há resignação possível

Num país de tradições agrárias e de relação forte (identitária) com a terra, não há lugar para a resignação face à catástrofe anual dos incêndios florestais. O que se repete todos os verões não é um castigo inevitável da natureza, mas sim um fracasso evitável.

A relação da Humanidade com o fogo é, ao longo da história, de amor-ódio. O fogo tanto é um aliado muito importante, fonte de calor e luz, como uma ameaça maciçamente destrutiva. E, por mais contraintuitivo que pareça, o fogo pode até chegar a ser benéfico. Quando se utiliza o fogo certo, nos locais certos, de forma hábil e diligente, este pode ajudar a moldar o desejável e contínuo rejuvenescimento da natureza e da paisagem e contribuir para a prevenção dos incêndios devastadores. O povo chama-lhe, simplesmente, as queimadas.

Há semanas atravessei o antigo Pinhal de Leiria e o sentimento de desolação foi enorme. A paisagem, que antes se caracterizava por uma floresta tão fechada com pinheiros tão altos que nos podíamos cruzar com morcegos em pleno dia, agora é uma extensão de terra, com uma paisagem rasteira a perder de vista. Mas um olhar mais demorado, deu para distinguir muitos pinheiros jovens que, em gerações, talvez venham a ser tão imponentes quanto os que arderam.

Lembrei-me então de uma aula que tive no liceu, de como o fogo pode ajudar a própria floresta. É o caso de algumas espécies de coníferas. Os pinheiros são um bom exemplo. Estas árvores necessitam constantemente do Sol. Crescem bem em terrenos abertos e ensolarados. Com o tempo, os pinheiros crescem e formam, entre si, uma espécie de guarda-sol que ensombreia o chão da floresta. Nestas circunstâncias, muitas das sementes lançadas pelas pinhas não germinam, por falta de sol. E a floresta, se não for sendo cuidada, seja através de queimadas ou de outros processos aplicados cirurgicamente, tende a envelhecer.

O incêndio que destruiu o Pinhal de Leiria há 8 anos foi um crime, uma calamidade. Passado praticamente uma década, a natureza não se resignou e, com a sua sabedoria e paciência, encontrou o caminho para se renovar. Tal como a lendária fénix, o pinhal ressuscita agora das suas próprias cinzas. Mas, entretanto, foram muito graves as consequências ambientais, sociais e económicas. Sobretudo, muitas das consequências poderiam ter sido evitáveis.

Hoje, mais do que um plano de prevenção e combate, Portugal precisa de um novo modelo que nos ajude a redefinir a nossa relação com o fogo de modo a construir um futuro mais resiliente e sustentável. Para tal há que adotar uma abordagem holística, baseada em 3 linhas de ação complementares: comunidades adaptadas à presença de fogo, ou seja, projetadas tendo em mente a segurança contra incêndios; paisagens resilientes que controlem a propagação do fogo e uma gestão inovadora que possibilite detetar e extinguir incêndios mais rapidamente.

Hoje, mais do que um plano de prevenção e combate, Portugal precisa de um novo modelo que nos ajude a redefinir a nossa relação com o fogo.

Em relação às comunidades adaptadas à presença de fogo, o que necessitamos fazer, de forma estrutural, é estancar o êxodo rural. Zonas habitadas são habitualmente mais cuidadas, vigiadas e protegidas. Adicionalmente, há que limpar o mato e a vegetação na proximidade das casas, utilizar materiais de construção resistentes ao fogo e proteger as casas contra fenómenos como, por exemplo, brasas voadoras, nomeadamente nas saídas de ar e chaminés. E tudo isto não pode ser apenas uma questão de dever cívico deixado à consciência de cada um, mas necessita coordenação, mobilização, responsabilização e penalização por omissão.

Quanto a criarmos paisagens resilientes ao fogo, há que recriar um equilíbrio saudável na natureza, reduzindo o mato e as árvores cobertas de vegetação em zonas selvagens ou de floresta. Há quem defenda a técnica milenar das queimadas, ou seja, introduzir o chamado “fogo bom”, fogo de baixa intensidade, aplicado nos locais e momentos certos. Mas para que tal seja bem feito e evite degenerar em incêndios avassaladores, é necessário que seja feito por quem o sabe fazer.

Imagino pequenas equipas, bem formadas, com métodos práticos e apoio logístico, desenhadas com o apoio dos bombeiros, a nível da freguesia ou, se quisermos, da GNR, que realizem, com saber e prontidão, trabalhos como levar a cabo as queimadas, abrir caminhos e pontos de acesso, criar zonas de retenção de águas, limpar terrenos, apagar pequenos focos de incêndio indesejáveis e acionar meios e bombeiros quando a situação ultrapassasse as suas capacidades.

Por último, a gestão inovadora do fogo e dos incêndios oferece um enorme potencial para abordar o problema dos incêndios rurais. Certamente os avanços tecnológicos oferecerão, cada vez mais, respostas tecnicamente adequadas. Resta, contudo, o grande desafio de uma atuação ágil e concertada, para que seja eficaz.  

Por tudo isto, o fogo acaba por ser um tema através do qual podemos viver e antecipar o futuro da relação da Humanidade com a Natureza. Trabalhando juntos e apoiados pela tecnologia, podemos construir um mundo em que as comunidades sejam resilientes aos incêndios e as florestas apresentem um equilíbrio saudável. Em última análise, podemos construir um futuro, no qual não apenas gerimos o fogo para proteger a vida humana e a propriedade, mas também para proteger a própria biodiversidade.

É tempo de abandonar o discurso da impotência. Temos o dever de deixar como legado um país menos queimado, menos resignado, mais saudável e mais sustentável.

Como dizia o sino da aldeia, quando o fogo assomava: “todos ao monte!”. A floresta é nossa. A terra é nossa. A responsabilidade é nossa, também. Por isso, “todos ao monte!”. Não há resignação possível.

A gestão inovadora do fogo e dos incêndios oferece um enorme potencial para abordar o problema dos incêndios rurais.