Debate sobre incêndios: entre a gritaria e o politiquês

“O governo, eu próprio e a MAI estivemos sempre ao leme”. Foi com esta frase que Luís Montenegro procurou contrariar a perceção, que já chegou a considerar “injusta”, de que estava de férias enquanto o país ardia. Montenegro ia preparado com uma lista de exemplos do que foi feito para prevenir os incêndios, garantiu que o tempo médio de reação às ignições foi de 15 minutos e até leu uma cronologia de tudo o que fez durante esta época de fogos. Mas não houve nenhuma explicação nova sobre o que o fez tardar em acionar o Mecanismo de Proteção Europeia – que foi acionado por Espanha no dia em que Montenegro disse não estarem reunidas condições técnicas para Portugal o fazer – , não explicou os relatos de descoordenação de bombeiros no terreno e não trouxe nenhuma resposta sobre se vai mexer nas carreiras destas corporações ou se pretende que o Estado passe a ter meios aéreos próprios no combate aos incêndios.

Paulo Raimundo, o líder do PCP que foi o primeiro a intervir depois do primeiro-ministro, ainda lembrou os cerca de 370 milhões de euros que os portugueses gastaram desde o ano passado a alugar meios aéreos a privados, quando um Canadair como os que foram recentemente encomendados pela Grécia custará qualquer coisa como 50 milhões. O comunista também pediu um compromisso com um investimento de 3,5% do PIB no mundo rural. Mas não obteve qualquer resposta.

“Chega como o primeiro-ministro com a maior área ardida da Europa, como um dos piores países na prevenção. Como é que pode vir aqui dizer que tudo funcionou?”, atacou André Ventura, que acabou como um dos alvos do debate com Hugo Soares, do PSD, e Mariana Mortágua, do BE, a acusarem-no de encenar vídeos nas redes sociais, fingindo que apaga fogos, e ridicularizando o papel dos bombeiros.

Ventura aproveitou, aliás, para fazer aos bombeiros o agradecimento que o Governo não incluiu numa publicação nas redes sociais na qual destaca o esforço de várias entidades nesta luta.

Mariana Mortágua – que foi interrompida com um “vai para Gaza” pela bancada do Chega quando contou como um bombeiro lhe perguntou se também ia fingir apagar fogos como Ventura – também criticou a forma como entre as 45 medidas aprovadas no Conselho de Ministros extraordinário “zero são para os bombeiros”. Algo a que o Governo reagiu, lembrando que as medidas para os bombeiros fazem parte do Programa do Governo.

João Almeida, do CDS, também não escondeu a situação que deixa no país uma sensação de “impotência perante uma luta desigual”, mas preferiu elogiar o facto de um primeiro-ministro pela primeira vez ter vindo ao Parlamento em agosto para dar respostas sobre incêndios e notar que as detenções por fogo posto dispararam e a pena para este crime foi aumentada, pedindo às autoridades que percebam a gravidade do que está em causa e atuem em conformidade.

“Quando já era tarde, adiou o recurso aos meios de combate que mais precisamos para não assumir que o país vivia uma situação de calamidade”, criticou Mariana Leitão, da IL, que também não teve resposta de Montenegro sobre a razão pela qual a AD não aprovou a proposta liberal para um Código Florestal Simplificado. “Portugal não precisa de mais planos para encher gavetas, precisa de ação”, disse, criticando a forma como muitas das medidas que saíram do relatório sobre os fogos de 2017 não terem ainda sido aplicadas.

“É extraordinário que ainda estamos a discutir se a resposta deve ser municipal, intermunicipal ou regional”, afirmou Rui Tavares, do Livre, que queria aproveitar a ocasião para discutir a regionalização. Uma ideia que foi mal recebida pela AD, apesar de Tavares ter dito que “o apelo ao diálogo é sincero”.

José Luís Carneiro, do PS, não queria estar ali. “Por nós este debate não teria acontecido, porque estamos longe deste problema estar resolvido”, declarou, numa alusão à forma como se opôs ao pedido do PCP e do Chega para realizar um debate que considerou alimentar a “chicana política”. Carneiro, que já foi MAI, reconheceu a “complexidade” da situação, mas não deixou de criticar a “insensibilidade!” e a “falta de humildade” do Governo.

Carneiro notou ainda que em 2022 e em 2023 houve apenas 4% de reacendimentos de incêndios e que este ano os dados mais recentes apontam para 9% de reacendimentos. Um número que considera demonstrar a falha na resposta do Governo.

Sem explicações para esses dados, o debate seguiu com Hugo Soares a acusar Carneiro de estar na Festa da Sardinha em Portimão, quando o país ardia. E ainda houve um momento para André Ventura atacar Mariana Mortágua pelo seu apoio a Gaza, numa série de ataques cruzados e com muita gritaria e apartes à mistura.

“Há uma coisa que não fizemos: não vestimos casacos da Proteção Civil”, disse o primeiro-ministro depois de ouvir todas as críticas da oposição. E garantiu que  o Pacto a 25 anos que agora pede é um “plano [que] não caiu do céu, é o resultado de um projeto e processo de amadurecimento de ideias” que envolveu toda a sociedade.

“Há políticas públicas que colaboram e devem colaborar [no combate aos incêndios]. É isso que está neste plano, que visa valorizar a floresta, aumentar a resiliência do sector florestal e remover obstáculos jurídicos e da identificação da propriedade”, disse Montenegro, responsabilizando os proprietários rurais.